San Blas é um arquipélago do Caribe panamenho com mais de 365 ilhas, nenhum hotel e uma cultura indígena muito viva. A melhor forma de conhecer é a bordo de um veleiro.
Foi o que fizemos: seis dias num catamarã, numa viagem organizada pela SAN BLAS on Board (que eu considero a melhor de lá e recomendo muitíssimo), pulando de ilha em ilha num mar de um turquesa que eu nunca tinha visto, nem no Tahiti.
Além do mar estourando de turquesa, me impressionou o fato de em pleno 2026 as ilhas serem absolutamente preservadas, sem especulação de resorts ou hoteis,e isso graças à resistência Guna Yala.

Guna Yala: o nome verdadeiro de San Blas
Para o povo nativo, o arquipélago se chama Guna Yala, nome que faz referência à cadeia de montanhas que se vê no horizonte, no continente. Quem me explicou isso foi Amaranta Lopez, indígena guna que encostou no nosso catamarã sua canoa, feita de um único tronco, para vender molas, os painéis de tecido bordado que as mulheres guna fazem à mão.

Enquanto apontava para a selva onde cresceu, ela contou que a avó a ensinou a confiar nas próprias mãos para garantir sustento, casa e comida. E que, ainda criança, foi colocada entre formigas como rito para fortalecer o espírito. Pode soar estranho para nós, mas é parte de uma tradição que segue de pé.
O que mais impressiona é a preservação: das mais de 365 ilhas, só 49 são habitadas, quase sempre com poucas choupanas e pequenos comércios. Fiquei pensando que, em qualquer outro lugar, isso já estaria tomado por resorts.

Um território indígena autônomo
San Blas é uma comarca autônoma, administrada pelos próprios guna, com leis, língua e costumes próprios. E essa autonomia tem uma história bem interessante.
Em 1925, cansados da repressão do governo panamenho (que tentava proibir seus rituais, impor roupas ocidentais e tomar suas terras), os guna se rebelaram. Liderados por Nele Kantule e Simral Colman, expulsaram as autoridades e proclamaram a República de Tule. Ela durou pouco, mas o acordo de paz que veio depois garantiu respeito à autonomia cultural e política da região.

Hoje, esse modelo de autogestão é reconhecido pela Constituição do Panamá. Na prática, isso significa que:
- A sociedade é matrilinear, ou seja, a linhagem materna é a que prevalece.
- A terra é coletiva.
- As mulheres seguem usando molas, adornos de miçangas e pinturas geométricas no rosto.
- Nenhum barco de fora ou turista entra sem autorização. Na estrada, há até um posto de controle de passaportes.
Outro ponto que me encantou é a forma como os guna lidam com gênero. Na cultura deles existem as omeggid, pessoas designadas homens ao nascer que vivem como mulheres, aceitas com naturalidade. Na visão guna, a natureza e o espírito podem ter muitas formas, e com as pessoas é igual.

Como chegar a San Blas saindo da Cidade do Panamá
Da Cidade do Panamá até o catamarã são cerca de quatro horas: três de carro e uma de lancha.
- Saída cedo: o transfer me buscou às 5h no hotel, em Casco Viejo. Dica de quem enjoa: tome um remédio antes de sair.
- Estrada até Porto Cartí (cerca de 3h): os últimos 40 minutos são de sobe e desce e curvas fechadas pela Cordilheira de Darién, uma das selvas mais densas das Américas, que funciona como uma barreira natural do território guna.
- Posto de controle: na entrada do território indígena, é preciso apresentar o passaporte.
- Lancha até o barco (cerca de 1h): de Porto Cartí, uma lancha rápida leva até a ilha onde o catamarã está ancorado.
Toda a minha logística foi organizada pela San Blas on Board.
Roteiro de catamarã por San Blas: as ilhas que visitei
Foram seis dias a bordo do Yoli Sail, catamarã onde vivem os argentinos Juliana Morozin e Alejandro Cardellini — eles venderam o apartamento em Buenos Aires depois da pandemia para morar no mar. Junto com o velejador Gabe Cano, recebem hóspedes em roteiros personalizados.

Chichime
A primeira parada e a ilha mais próxima do porto, por isso recebe também os bate-voltas do continente. Mesmo assim, é grande e nunca parece cheia. Tem cabanas simples de madeira e um restaurante, onde jantamos descalços sob a lua. Nos seis dias seguintes, ninguém lembrou que chinelo existia.

Salardup e Cambobia
Cambobia foi a imersão mais humana da viagem. Algumas famílias guna vivem ali, e Rob, um dos moradores, nos ensinou a soprar conchas, contou sobre seus deuses e dividiu um pão caseiro assado na lenha, direto na areia. Fechamos o dia com coco fresco e um pôr do sol lilás.
Coco Banderas
Acordei, pus a cabeça para fora da escotilha e contei treze ilhas ao redor, sem nenhum outro barco à vista. Dá para remar de stand up paddle de uma ilha a outra por cima de piscinas naturais e corais, com tubarões-lixa nadando em volta.


Isla Verde e Isla Blanca
Uma ao lado da outra: a Verde é enorme; a Blanca, tão pequena que se atravessa em dez passos, mas ótima para ver o pôr do sol. A noite terminou nas redes do catamarã, sob uma lua cheia que dispensava qualquer luz.

Cayos Holandeses
O ponto alto, junto com Coco Banderas. Por ficar longe da costa, só chega aqui quem passa pelo menos três dias a bordo. O barco ancora numa piscina natural gigante, cercada por seis ilhotas e uma ilha maior. Ali fica o restaurante de Ibin Linares, decorado com bandeiras deixadas por velejadores do mundo todo e murais sobre os mitos guna. Vale jantar: ele serve frutos do mar fartos (incluindo lagosta, fora da época de defeso) e até pizza.

Perro Chico
A despedida foi com snorkel num naufrágio a poucos metros da superfície, coberto de corais vivos roxos, vermelhos e brancos, e com peixes de todos os tamanhos. A água era tão transparente que parecia vidro. Nunca tinha visto um naufrágio com tanta vida.
Onde ficar em San Blas: bate-volta, cabana ou veleiro?
Existem três jeitos de conhecer San Blas, e para mim o veleiro ou catamarã é o melhor deles:
| Opção | Como é | Para quem |
|---|---|---|
| Bate-volta | Ida e volta da Cidade do Panamá no mesmo dia | Pouco recomendado: muitas horas de estrada para pouco tempo nas ilhas |
| Cabanas guna | Estrutura básica: colchão, ventilador e, muitas vezes, banheiro compartilhado do lado de fora | Quem quer uma experiência autêntica e não se importa em ficar restrito às ilhas do entorno |
| Veleiro ou catamarã (a que eu recomendo!) | Cabine privativa, refeições, bebidas e passeios incluídos | Quem quer chegar às ilhas mais remotas com conforto |
E não precisa ter medo de enjoo: as barreiras de corais e de ilhas deixam o mar de San Blas parecendo uma piscina.
Como é a vida a bordo
Como a Juliana, nossa anfitriã no Joli Tail, me explicou, a ideia não é funcionar como hotel: eles abrem a própria casa, onde vivem, para os hóspedes. O dia a dia mistura modernidade e tradição. Tem Wi-Fi rápido e dessalinizador até para a água do chuveiro, mas à noite tudo se desliga e a luz vem das estrelas.

A comida é abastecida com o que os guna vendem todas as manhãs, deslizando de canoa entre os barcos. E o ritmo segue o deles: o dia começa com o nascer do sol e termina quando a lua aparece.
Dicas práticas para viajar a San Blas
| Item | O que saber |
|---|---|
| Moeda | Balboa (B/) e dólar americano, aceitos com o mesmo valor |
| Fuso horário | 2 horas a menos que Brasília |
| Visto | Brasileiros não precisam de visto para até 90 dias |
| Vacina | Certificado internacional de febre amarela, tomada pelo menos 10 dias antes |
| Voo | A Copa Airlines é a única com voos diretos do Brasil para a Cidade do Panamá |
| Quanto tempo ficar | Pelo menos 5 dias em San Blas (o ideal são 5 ou 6 noites a bordo) + 2 dias na Cidade do Panamá |
| Quando ir | De dezembro a maio, a época mais seca; de junho a novembro há mais chance de chuva, embora San Blas raramente seja atingida diretamente por furacões |
| Site oficial | visitpanama.com |
Antes ou depois: um giro por Casco Viejo
Como o caminho para San Blas passa pela Cidade do Panamá, vale reservar uns dias para Casco Viejo, o centro histórico fundado em 1674 e tombado pela Unesco. O bairro reúne arquitetura colonial, ruínas, lojinhas de artesanato e uma das cenas gastronômicas mais interessantes da América Central.

O melhor é explorar a pé. Não deixe de ver:
- Plaza Herrera, com seus cafés.
- Plaza de la Independencia, onde fica a Catedral Metropolitana.
- Ruínas do Convento de Santo Domingo e seu arco de pedra centenário.
- Calle de Los Sombreros, com varais de chapéus coloridos e a Galeria Indígena, ótima para comprar artesanato (molas incluídas) a bons preços.
Para comer, anote dois endereços: o Fonda Lo Que Hay, do chef José Olmedo Carles, com releituras modernas da cozinha panamenha, e o Casa Escondida, aconchegante e com receitas autorais à base de ingredientes locais.

Perguntas frequentes sobre San Blas
Mais de 365, das quais apenas 49 são habitadas.
Não. Não há hotéis, resorts ou pousadas — só cabanas simples administradas pelos guna e a opção de dormir em veleiros e catamarãs.
Sim. Por ser território indígena autônomo, há um posto de controle na estrada onde os passaportes são conferidos.
Pelo menos cinco. Ilhas mais remotas, como Cayos Holandeses, só são alcançadas por quem fica três dias ou mais a bordo.
Dá, mas não compensa: são cerca de quatro horas de trajeto em cada sentido para poucas horas nas ilhas.
Dificilmente. As barreiras de corais e de ilhas deixam o mar muito calmo.
De dezembro a maio, na estação seca.








